sábado, 27 de agosto de 2011

Escritos de Nitiren Daishonin - CARTA DE SADO - ADMISSÃO


Carta de Sado (END, v. 5, p. 13)

Edição 515 - Publicado em 16/Julho/2011 - Página 26

Matérias do Exame de Budismo 2011

Resumo e Cenário Histórico

Esta carta foi escrita no dia 20 de março de 1272, aproximadamente cinco meses após Nitiren Daishonin ter chegado a seu exílio na Ilha de Sado. O Buda Nitiren Daishonin endereçou essa carta a Toki Jonin, samurai e principal serviçal do lorde Tiba, que era o guarda da Província de Shimosa; a Saburo Sae­mon (Shijo Kingo), em Kamakura; e também a outros fiéis seguidores.
Nitiren Daishonin havia sido banido no dia 10 de outubro de 1271. Ele foi acusado de traição por Ryokan, o reverendo prior do Templo Gokuraku, em Kamakura, e por Hei no Saemon, representante do Departamento de Assuntos Policiais e Militares. Hei no Saemon planejava executá-lo em Tatsunokuti antes de este ser levado para a custódia de Homma Shiguetsura, delegado de Sado.
No entanto, a tentativa de execução falhou e, após o adiamento de quase um mês, os guerreiros de Homma escoltaram Nitiren Daishonin à costa do Mar do Japão. Depois de um atraso devido ao mau tempo, ele finalmente chegou à Ilha de Sado no dia 28 de outubro.
No começo, Nitiren Daishonin teve de ficar num local em ruínas conhecido como Sammai-do, onde viveu exposto ao vento e à neve que penetravam em sua cabana através de buracos no telhado e nas paredes. Após cinco meses, ele pôde se mudar para um local mais apropriado em Itinosawa.
Ali, o Buda Nitiren Daishonin engajou-se em debates contra os reverendos da Terra Pura e de outras escolas e propagou ativamente seus ensinos. Enquanto esteve em Sado, Daishonin compilou dois de seus escritos principais, “Abertura dos Olhos” e “O Objeto de Devoção para Observação da Mente”. Em fevereiro de 1274, ele foi perdoado, retornando a Kamakura no dia 26 de março.
Na Carta de Sado, Nitiren Daishonin declara, inicialmente, que o único caminho para se atingir a iluminação é ter a disposição de doar a própria vida, o tesouro mais precioso de uma pessoa, ao Budismo. Em seguida, ele afirma que o Chakubuku é o método mais apropriado para esta época, e que uma pessoa somente poderá atingir a iluminação dedicando a própria vida a essa prática. Após isso, ele declara ser “o pilar, o sol, a lua, o espelho e os olhos” e também “o pai e a mãe” da nação japonesa.
Estas são referências simbólicas do Buda dos Últimos Dias da Lei, que é perfeitamente dotado das três virtudes de pai, mestre e soberano. O Buda Nitiren Daishonin também menciona suas primeiras profecias feitas na “Tese sobre o Estabelecimento do Ensino Correto para a Paz da Nação” em relação às disputas políticas e aos conflitos violentos internos.
Na última parte da “Carta de Sado”, Nitiren Daishonin apresenta uma explanação abrangente sobre carma ou destino, declarando que suas dificuldades surgiram pelo fato de ele ter caluniado o Sutra de Lótus numa existência passada. Usando a própria vida como exemplo, Nitiren Daishonin explica a seus discípulos o tipo de espírito e prática que lhes permitirão transformar o carma. E completa dizendo que as pessoas que tentam propagar o correto ensino do Budismo infalivelmente enfrentarão oposições. Na verdade, tais oposições são oportunidades que lhes possibilitarão transformar o carma. Aqueles que abandonaram a fé e fizeram calúnias são advertidos de que suas ações provocarão as piores consequências. Nitiren Daishonin compara a falta de visão dessas pessoas aos vaga-lumes que ridicularizam o Sol.
A seguir, trechos do Gosho e as respectivas explanações do presidente Ikeda.
As coisas mais terríveis deste mundo são o calor do fogo, o brilho das espadas e a sombra da morte. Se até os animais têm medo da morte, não é de surpreender que os seres humanos também tenham. Se mesmo um leproso luta pela vida, imagine uma pessoa saudável.
“As coisas mais terríveis deste mun­do são...” Ao iniciar “Carta de Sado” desse modo, Nitiren Daishonin põe em primeiro plano a preocupação que ocupa a mente de todas as pessoas.
Temer a morte e apegar-se à vida é próprio do ser humano. “O calor do fogo” indica os acidentes e os desastres naturais, enquanto “o brilho das espadas” alude à violência da guerra. Nada é mais temeroso para as pes­soas que a “sombra da morte”, ou a perspectiva da própria extinção. Isso é certo tanto para os animais como para os seres humanos. Mas, se a vida for reduzida ao temor da morte e ao apego desesperado à existência, como poderemos experimentar a profunda alegria de uma vida plena? Por que nascemos? Qual é o propósito de nossa vida? Por que morremos? Nós só podemos edificar uma vida de profundo significado se contemplarmos seriamente nossa própria existência.
Nitiren Daishonin trata do tema da vida e da morte, neste escrito, para explicar aos seguidores — expostos a enormes sofrimentos e dificuldades — que o Budismo existe para resolver os problemas fundamentais da vida humana. Procura também despertar as pessoas para a ideia de que, não importa a tempestade que venha a açoitá-las, jamais devem perder de vista a fé — a base de tudo.
O Buda ensinou que o ato de cobrir todo um sistema de grandes mundos com os sete tipos de tesouros não se compara a oferecer o dedo menor ao Buda e ao sutra [de Lótus] (Cf. LS, v. 23, p. 285). O garoto Montanhas de Neve1 ofereceu o próprio corpo e o asceta Aspiração à Lei2 removeu a própria pele [para nela gravar os ensinos do Buda]. Como não há nada mais precioso que a própria vida, aquele que a dedica à prática budista, com certeza, atingirá o estado de Buda. Se alguém está disposto a consagrar a vida, por que pouparia qualquer outro tesouro pela causa do Budismo? Em outras palavras, se a pessoa reluta em se desfazer da riqueza, como poderia sacrificar a vida, que é muito mais preciosa?
A que, então, devemos dedicar esta vida insubstituível? Na “Carta de Sado”, Nitiren Daishonin ensina que podemos atingir a iluminação dedicando nossa vida à prática do Budismo. Para ressaltar o profundo significado desta declaração, primeiro ele cita o 23º capítulo do Sutra de Lótus, “Os Feitos do Bodhisattva Rei dos Remédios”. Em seguida, menciona os exemplos do garoto Montanhas de Neve e do asceta Aspiração à Lei — duas figuras que representam o Buda Sakyamuni em existências passadas, quando realizava práticas de bodhisattva — para esclarecer que a dedicação com espírito inabalável é a chave para realizar a prática budista.
O Buda Nitiren Daishonin observa ainda que os que estão dispostos a dar a vida não vacilarão em se desprender de qualquer outro tesouro. É como se, em outras palavras, ele dissesse de forma rigorosa e, ao mesmo tempo, benevolente aos seguidores, que tremiam só de pensar na possibilidade de serem perseguidos e de sofrerem terríveis consequências, como o confisco de terras: “Estas perseguições que estamos enfrentando não seriam uma oportunidade de dedicarmos a vida, sem reservas, para atingirmos o estado de Buda? A que deveríamos temer, uma vez que este é o objetivo da suprema iluminação que está bem diante de nós?”
Essa passagem também transmite um importante espírito que nos brinda lições nos dias atuais. Uma dessas lições, como já disse, é: vivermos apegados a algo não nos conduz à felicidade genuína. O estabelecimento de um propósito fundamental, a disposição de percorrer o caminho correto na vida, não importando as dificuldades que esse desafio possa vincular, é o que nos possibilita experimentar a mais profunda alegria e realização. Se nos deixarmos manipular pelos desejos mundanos e pouparmos a vida no momento crucial, nosso coração definhará e só nos restarão sentimentos como aflição, miséria e arrependimento.
Outra importante lição é que o elevado estado de vida obtido com a prática budista é eterno e transcende nossa existência atual. Dedicando esta preciosa existência ao Budismo, temos a certeza de que experimentaremos imensa felicidade e inúmeros benefícios em todas as futuras existências.
Conseguir enxergar os fatos da perspectiva da eternidade da vida — através do passado, presente e futuro — e também do ponto de vista da felicidade eterna constitui o ponto decisivo para transcender os diversos problemas da vida e da sociedade. À medida que as pessoas, individualmente, adquirem uma perspectiva correta sobre a vida e a morte, elevam o estado de vida da humanidade de forma coletiva. A filosofia que desejar abrir novas possibilidades em benefício da sociedade do século 21 necessitará saber distinguir entre noções superficiais e profundas acerca da vida e da morte. Nós, praticantes do Budismo Nitiren, marchamos na vanguarda nesse sentido. Por isso, avancemos orgulhosos com essa convicção.
Aprendemos que é nosso dever retribuir as dívidas de gratidão que temos com os outros, mesmo ao custo de nossa vida. Muitos guerreiros sacrificam a vida por seu lorde; talvez muito mais do que imaginamos. Um homem morre para defender a honra e uma mulher morre por seu marido. Os peixes lutam para sobreviver, lamentam pela pouca profundidade do lago onde vivem e cavam buracos no fundo para se esconder; porém, enganados pela isca, são fisgados. Os pássaros, temendo que as árvores em que vivem sejam muito baixas, escolhem os galhos mais altos para se proteger, mas, enganados pela isca, eles também são apanhados em armadilhas. Os seres humanos são igualmente vulneráveis. As pessoas geralmente se sacrificam por assuntos seculares insignificantes, mas raramente fazem o mesmo pelos preciosos ensinos do Buda. Assim, não é de surpreender que não atinjam a iluminação.
Num dos trechos anteriores, observando que é comum as pessoas perderem a vida em acidentes ou em conflitos armados — mencionados como “o calor do fogo” ou “o brilho das espadas” —, Nitiren Daishonin nos lembra que as pessoas se apegam à própria vida como se apegam a um tesouro.
Nessa passagem, também destaca que há vários exemplos de pessoas que dão a vida de acordo com as convenções e os valores morais da sociedade.
Do mesmo modo, há inúmeros casos de indivíduos que, iludidos, sacrificam a vida da maneira mais insensata, acreditando que estão se protegendo do perigo.
A conduta dos peixes e das aves descrita nessa parte da carta baseia-se na sabedoria dos antigos pensadores, documentada em obras como Fundamentos do Governo na Era Chen-Kuan (Zhenguan Zhengyao), um clássico chinês sobre a arte da liderança.
“Enganados pela isca” é uma metáfora que mostra como os seres humanos — mesmo adotando diversas medidas e precauções para se manter a salvo — são manipulados pelos desejos imediatos ou cometem erros de julgamento em razão da forma estreita de pensar, o que resulta na própria destruição.
É triste que essa insensatez humana continue frequente ainda hoje.
Por essa razão, Nitiren Daishonin aconselha que, em vez de dar a vida — o bem mais valioso que temos — por questões mundanas e superficiais, devemos nos dedicar aos “preciosos ensinos do Buda”.
Apesar de falarmos em “não poupar a própria vida”, o Budismo Nitiren não é, de modo algum, um ensino que promove o martírio ou o autossacrifício. Makiguti, Toda e eu — os três primeiros presidentes da Soka Gakkai — nos dedicamos com a determinação de impulsionar o Kossen-rufu de forma que nenhum membro fosse sacrificado, e com a disposição de dar o melhor de si para esse fim. Esse espírito dos sucessivos presidentes deverá ser mantido na Soka Gakkai para sempre.
Não desperdicem, de modo algum, a preciosa vida dos senhores. Aos jovens, eu digo: “Por mais difíceis que sejam as circunstâncias em que se encontrem, jamais lamentem ou prejudiquem a vida de vocês nem a dos outros. Cada um de vocês é dotado da maravilhosa e suprema natureza de Buda”.
Em termos específicos, como deveríamos praticar para dedicar essa inestimável vida aos “preciosos ensinos do Buda”? No escrito “O Presente de Arroz”, Nitiren Daishonin
diz sobre a consecução do estado de Buda pelas pessoas comuns nos Últimos Dias da Lei: “A respeito da iluminação, os mortais comuns se tornarão budas se mantiverem uma determinação firme e sincera” (WND,
v. 1, p. 1125). Essas palavras, da maneira mais sublime e elevada, expressam a postura de “não poupar a própria vida”. O Buda Nitiren Daishonin declara, de maneira enfática, que as pessoas comuns dessa época, sem ter de sacrificar a vida como o garoto Montanhas de Neve e por meio da “determinação firme e sincera”, podem obter o mesmo benefício resultante da dedicação abnegada.
Como afirma Nitiren Daishonin, o que importa é o coração. É uma questão de empreender milhões de kalpa de esforços num único momento da vida em prol do Budismo e pela nobre causa do Kossen-rufu. Para nós, não poupar a vida significa recitar constantemente o Nam-myoho-rengue-kyo, sem nenhum temor, e nos dedicarmos de corpo e alma para comprovar a fé — pelo bem do mundo, do futuro e de todas as pessoas.
De acordo com a época [ou o tempo], o Budismo deve ser propagado pelos métodos Shoju ou Chakubuku. Esses métodos são comparáveis às artes literária e marcial (END, v. 5, p. 15).
Nesta passagem, Nitiren Dai­sho­nin esclarece a prática budista apropriada para os Últimos Dias da Lei. Shoju refere-se a explicar a Lei com base na capacidade de cada pessoa. Chakubuku significa ensinar às pessoas o princípio supremo do Nam-myoho-rengue-kyo.
O Buda Nitiren Daishonin diz que o método escolhido pela pessoa para a propagação deve-se adequar à época ou ao tempo. A definição do método adequado para um período particular só é possível por meio de uma compreensão essencial do que as pessoas e a época requerem. Os sutras budistas, de modo geral, dividem o tempo após a morte do Buda em três períodos: Primeiros, Médios e Últimos Dias da Lei. Em “A Seleção do Tempo”, Nitiren Daishonin diz: “Tomemos emprestado os olhos do Buda para avaliar a questão do tempo e da capacidade [das pessoas]” (WND, v. 1, p. 540). Para determinar a época e escolher o método correto e apropriado de propagação, precisamos observar os fatos pelas lentes precisas e perspicazes da sabedoria do
Buda.
Numa das explanações sobre a “Carta de Sado”, Jossei Toda analisou a frase: “De acordo com a época [ou o tempo], o Budismo deve ser propagado pelos métodos Shoju ou Chakubuku”. Nessa ocasião, ele disse: “Não devemos interpretar mal o significado da palavra ‘tempo’. Nitiren Daishonin nos ensina que devemos empregar os métodos Shoju ou Chakubuku conforme o tempo. Porém, muitos interpretam essa frase de modo equivocado, acreditando que cada um possa decidir de maneira arbitrária e por si só qual método deverá ser usado em determinado momento. Por exemplo, há os que pensam: ‘Já que a sociedade critica de forma tão dura os ensinos budistas, devemos empregar o Shoju’, ou ‘Como todos estão de acordo e não fazem objeções, então, devemos aplicar o Chakubuku’. No entanto, essa interpretação é incorreta. O ‘tempo’, nessa frase, refere-se aos Primeiros, aos Médios e aos Últimos Dias da Lei [...], e os Últimos Dias da Lei são a época para aplicar apenas o Chakubuku” (TODA, Jossei.
Toda Josei Zenshu [Obras Completas de Jossei Toda]. Tóquio: Seikyo Shimbunsha, 1986, v. 6, p. 541-542).
Sempre e onde quer que realizemos nossas atividades, jamais devemos nos esquecer de nos inspirar no espírito do Chakubuku, ou seja, compartilhar o Nam-myoho-rengue-kyo com as pessoas. Assim se comportam os genuínos discípulos dos grandes mestres do Chakubuku.
(...)
Chakubuku significa denunciar o errôneo no mundo do Budismo com o coração de um rei leão e revelar o ensino correto. Nitiren Daishonin declara que, enquanto possuirmos esse corajoso espírito, mesmo uma palavra ou frase do ensino correto nos conferirá o benefício de manifestar o estado de Buda. Contudo, sem essa postura essencial, ou seja, sem o espírito de Chakubuku baseado no sentimento de prezar a Lei, é impossível alcançar o estado de Buda, ainda que estudemos mil sutras ou dez mil tratados.
O escritor britânico Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) disse: “Mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal” (CHESTERTON, Gilbert Keith, Orthodoxy [Ortodoxia]. Nova York: Dodd, Mead and Company, 1949. p. 133). De nosso ponto de vista, “alguma coisa fora de nós” poderia se referir a valores como a Lei Mística ou nossos mestres da fé, nossos companheiros e entes queridos, a humanidade, a Soka Gakkai e o Kossen-rufu. “Esquecermo-nos de nossa vida pessoal” seria algo semelhante a “não poupar a própria vida”, ou ao espírito de “prezar a Lei mais que a própria vida” [Paráfrase de uma passagem de Comentários sobre o Sutra do Nirvana, de Chang-an: “Nosso corpo é insignificante, mas a Lei é suprema” (WND, v. 1, p. 1021)]. Numa de suas explanações, Toda Sensei analisou o conceito de “não poupar a vida”, que consta no Sutra de Lótus (Cf. LS, v. 16, p. 230), dizendo: “Sem essa atitude altruísta, não poderíamos recitar Daimoku. [...] Tenho certeza de que ninguém nunca elogiou ou felicitou os senhores por propagarem esse Budismo. Se não tivéssemos essa atitude abnegada de não poupar a vida, não poderíamos continuar com nossos esforços pelo Kossen-rufu. Se um insulto ou uma reação violenta bastarem para nos desanimar, então, seria melhor nem nos darmos ao trabalho de falar sobre o Budismo para as pessoas” (TODA, Jossei. Toda Josei Zenshu [Obras Completas de Jossei Toda]. Tóquio: Seikyo Shimbunsha, 1985, v. 5, p. 415).
Esta era a extraordinária coragem de Jossei Toda, grande líder e grande mestre do Chakubuku. Desde o início de nosso movimento, os membros têm avançado com coragem e perseverança infatigável, dispostos a compartilhar a Lei Mística com os
semelhantes, tal como Toda Sensei ensinou.
Os grandes sábios da antiguidade praticaram os ensinos budistas de acordo com a época. O garoto Montanhas de Neve e o príncipe Sattva sacrificaram a vida quando lhes disseram que, em troca, poderiam ouvir os ensinos e que doar a própria vida se constitui na prática de Bodhisattva. No entanto, por que alguém deveria sacrificar a vida quando isso não é necessário? Numa época em que não há papel, a pessoa deve usar a própria pele. Numa época em que não há pincel, a pessoa deve usar os próprios ossos. Numa época em que as pessoas louvam aqueles que observam os preceitos e os praticantes do ensino correto, ao mesmo tempo em que denunciam aqueles que violam ou ignoram os preceitos, elas devem seguir rigorosamente os preceitos.
Numa época em que o confucionismo ou o taoísmo são empregados para reprimir os ensinos de Sakyamuni, a pessoa deve arriscar a vida para advertir o imperador, assim como fizeram os mestres do Darma Tao­an, Hui­yüan e o Mestre Tripitaka Fa­tao.
Numa época em que as pessoas confundem os ensinos Hinayana com o Mahayana, os ensinos provisórios com o verdadeiro ou as doutrinas exotéricas com as esotéricas, como se fossem incapazes de distinguir as pedras preciosas dos pedregulhos ou o leite de vaca do leite de mula, devemos mostrar firmemente essas diferenças, seguindo o exemplo dos grandes mestres Tient’ai3 e Dengyo4 (END, v. 5, p. 15 e 16).
No passado, grandes sábios ou Bodhisattvas foram capazes de atingir o estado de Buda praticando de acordo com a época, algo ao qual o Budismo atribui extrema importância.
Mesmo antes do surgimento de Sakyamuni e do budismo como sistema formal de pensamento, observamos que diversos praticantes altruístas e respeitados mestres, como os mencionados nesse trecho, davam a vida para ouvir a verdade suprema que os
conduziria à iluminação. Porém, quando os ensinos do Buda atingem ampla aceitação na sociedade, qualquer que seja a época, os praticantes dessas doutrinas têm a responsabilidade de dar bom exemplo na fé para que muitos outros também as pratiquem corretamente. Em contrapartida, numa época em que o governante reprime e contesta o Budismo, os praticantes devem resistir ao poder e advertir essa pessoa ao custo da própria vida. É uma época em que os ensinos budistas são distorcidos e as pessoas ficam confusas a respeito do que seja ou não correto. Portanto, é imperativo esclarecer a superioridade relativa das distintas correntes budistas. Que tipo de época, então, é a atual? Como dissemos, o Budismo só pode ser transmitido por meio da compreensão correta da prática apropriada para esse período.
Nesse trecho, em que Nitiren Daishonin se refere aos “grandes sábios da antiguidade”, as pessoas que conseguem reconhecer a época e adotar as ações necessárias são chamadas, no Budismo, de “sábias”. O que essas pes­soas que buscaram o Caminho no passado e os mestres budistas têm em comum é a postura de proteger a Lei, o espírito de prezar o ensino correto do Buda e o comprometimento com as demais pessoas. Se elas conseguiram compreender claramente isso foi porque não pouparam a própria vida. Um requisito essencial que os mestres ou líderes budistas devem ter é a capacidade de compreender a época e de propagar o ensino conforme o tempo. A Soka Gakkai obteve um grande desenvolvimento porque a liderança de seus presidentes, Makiguti e Toda, sempre se adequou à época. E eu, como terceiro presidente, sem deixar que meu diálogo interior com o mestre Toda se interrompesse, orei e orei, incansavelmente, para abrir o caminho do Kossen-rufu de forma que se ajustasse à época. Eis a razão do êxito de nosso movimento.
Em abril de 1980, depois de concluir minha quinta visita à China, voei direto de Xangai a Nagasaki para empreender uma viagem de orientação por toda a Kyushu. Esta foi a primeira viagem de orientação a uma localidade do Japão desde que, no ano anterior [1979], havia sido obrigado a deixar a presidência da Soka Gakkai. De Nagasaki parti para Fukuoka. Ali, clamei a meus amados discípulos de Kyu­shu, profundamente comprometidos e decididos a se empenhar comigo na luta pelo Kossen-rufu: “Não permitam que o estandarte da propagação tombe! Não deixem que a chama da fé se apague!” De Kyushu — região que havia sofrido tanto por causa dos problemas ocasionados pelo clero —, lancei uma poderosa contraofensiva, decidido a manter vivo o espírito da dedicação abnegada ao Kossen-rufu, característica do Budismo Nitiren. Com a consciência de que este era o momento crucial para assentar as bases da eterna vitória da Soka Gakkai, os membros de Kyushu se levantaram comigo. Quando os discípulos seguem o mestre e empreendem com ele uma campanha pelo Kossen-rufu apropriada para a época, a vitória está assegurada. Nossos companheiros de Kyushu têm escrito uma história de triunfo como esta.
A época atual é o momento de nossos sucessores da Divisão dos Jovens perpetuarem esse importante espírito Soka de mestre e discípulo, e assegurarem-se de que esse compromisso seja transmitido pelo eterno futuro.
Aquele que escala uma montanha, mais cedo ou mais tarde, terá de descê-la. Aquele que despreza o outro será desprezado. Aquele que desdenha o outro por sua bela aparência, nascerá com uma aparência feia. Aquele que rouba alimentos e roupas cairá infalivelmente no mundo dos espíritos famintos. Aquele que ridiculariza uma pessoa digna que observa os preceitos nascerá em uma família pobre e de posição inferior. Aquele que calunia uma família que abraça o ensino correto nascerá numa família que mantém visões errôneas. Aquele que ridiculariza o que mantém fielmente os preceitos nascerá como uma pessoa comum e será perseguido pelo soberano de sua nação. Esta é a lei geral de causa e efeito (END, v. 5, p. 25 e 26).
“Aquele que escala uma montanha, mais cedo ou mais tarde terá de descê-la...” — por meio de um raciocínio que todos podem compreender, Nitiren Daishonin delineia o princípio budista convencional sobre a retribuição cármica.
A palavra “carma” deriva do antigo conceito indiano, anterior ao Budismo, que significa “ação”. Na Índia antiga, acreditava-se que para se libertar do sofrimento ocasionado pelo carma negativo era necessário praticar ações especiais; por exemplo, rituais presididos por sacerdotes em nome dos seguidores, que, nesse caso, se limitavam a esperar que os deuses lhes concedessem a salvação.
Em contrapartida, o Budismo rejeitou o pensamento de que o destino era determinado por uma divindade ou ser transcendental ao ser humano. É uma filosofia voltada para o interior do indivíduo, segundo a qual a iluminação provém da própria vida. Nesse sentido, o Budismo afirma que cada pessoa é arquiteta do próprio destino. Nossa vida atual é resultado de nossas ações e escolhas do passado.
Nosso futuro será determinado pelo que fizermos no presente — seja pelo acúmulo de “bom carma”, seja pelo acúmulo de “mau carma”.
Este foi justamente um dos tópicos de meu diálogo com o historiador britânico Arnold Toynbee (1889-1975). Na opinião do Dr. Toynbee, temos a liberdade de melhorar nosso destino em qualquer momento, aqui mesmo e neste instante. Tal como ele afirmou, o Budismo é uma filosofia que concede importância primordial a nossas ações e disposição interior.
As ideias budistas convencionais sobre a retribuição cármica, segundo as quais nossos efeitos negativos do presente são o resultado de nossas más causas anteriores, e os efeitos positivos são o produto das boas causas realizadas no passado, na realidade, não constituem um princípio de transformação cármica. Isso porque, para se erradicar todas as causas cometidas no passado, uma a uma, seria preciso um tempo inconcebivelmente longo.
Na “Carta de Sado”, Nitiren Daishonin salienta que essa visão sobre a retribuição cármica se baseia na “lei geral de causa e efeito”. De modo implícito, ele diz que seu budismo não se baseia nessa causalidade geral.
No entanto, meus sofrimentos não se atribuem a essa lei causal. No passado, desprezei os devotos do Sutra de Lótus. Ridicularizei também o próprio sutra, algumas vezes com louvor exagerado, outras, com desdém — esse sutra que é tão maravilhoso quanto duas luas brilhando uma ao lado da outra, duas estrelas juntas, um Monte Hua sobre outro ou duas joias unidas. É por isso que enfrentei os oito tipos de sofrimentos mencionados. Normalmente, esses sofrimentos aparecem um de cada vez ao longo do infinito futuro. Porém, Nitiren denunciou os inimigos do Sutra de Lótus de maneira tão voraz que todos os oito sofrimentos apareceram de uma só vez. Isso se assemelha ao caso do camponês que tem enorme dívida com o lorde de seu vilarejo e outras autoridades. Enquanto o camponês permanecer no vilarejo ou no distrito, em vez de pressioná-lo impiedosamente, seus credores talvez prolonguem o pagamento ano após ano. Entretanto, se o camponês tentar ir embora, eles o cercarão e exigirão que ele pague tudo de uma vez. É o que o sutra quer dizer com a seguinte frase: “Isso ocorre graças aos benefícios obtidos por proteger a Lei” (END, v. 5, p. 26 e 27).
Nitiren Daishonin revela nesse trecho uma causalidade muito mais profunda ou essencial. Ele explica que a razão pela qual tem suportado os oito tipos de retribuição cármica não se deve à lei geral de causa e efeito como ele descreveu. Ele atribui o motivo às ações contra a Lei praticadas no passado, por exemplo, o ato de aviltar os devotos do Sutra de Lótus, o rei dos sutras, um ensino tão maravilhoso “quanto duas luas brilhando uma ao lado da outra, duas estrelas juntas, um Monte Hua sobre outro ou duas joias unidas”. Em decorrência desse carma negativo fundamental formado por meio de ações contra os que mantinham o supremo ensino, Nitiren Daishonin teve de experimentar os oito tipos de retribuição. Ele esclarece que, na raiz de todas as causas negativas, que fazem os seres humanos sofrer, estão os atos contra a Lei [que, no sentido amplo, incluem a calúnia e a recusa à Lei fundamental da vida e do universo].
Por fim, é possível nos libertarmos de nosso carma negativo e acumular um carma fundamentalmente positivo em nossa vida por meio da dedicação como devotos do Sutra de Lótus de enfrentarmos os adversários do Sutra e de propagar a Lei Mística.
O que Daishonin explica nessa passagem é a “causalidade para atingir o estado de Buda”, que implica eliminar o mal fundamental e manifestar com vigor o estado de Buda — a nona consciência — que existe na essência da vida. Esta é a “causalidade da Lei Mística”, implícita no Sutra de Lótus; ou seja, no Nam-myoho-rengue-kyo.
Mesmo que neste momento estejamos sofrendo em consequência de alguma retribuição cármica, se nos basearmos na causalidade da Lei Mística, poderemos manifestar imediatamente o vasto estado de vida de Buda. Isso quer dizer que só podemos transformar realmente nosso carma por meio da Lei Mística da simultaneidade de causa e efeito. A Lei Mística nos possibilita realizar uma transformação interior com base no princípio de que os nove mundos e o mundo do estado de Buda são inerentes e indivisíveis; ou seja, os nove mundos possuem o potencial do estado de Buda, enquanto esse último conserva o potencial dos nove mundos.
Em contraste, a causalidade geral dos ensinos pré-Sutra de Lótus opera com base no princípio da não simultaneidade de causa e efeito. Como a eliminação de incontáveis faltas cometidas em existências passadas levaria um tempo inconcebível, a transformação do carma nesta existência acabaria sendo algo impossível.
Nitiren Daishonin afirma, ressaltando a diferença entre estas duas ideias de lei causal: “Normalmente, esses sofrimentos aparecem um de cada vez ao longo do infinito futuro. Porém, Nitiren denunciou os inimigos do Sutra de Lótus de maneira tão voraz
que todos os oito sofrimentos apareceram de uma só vez”. Nessa frase, Nitiren Daishonin esclarece o tipo de prática budista que nos possibilita realizar causas positivas fundamentais. Essa prática não é outra senão o Chakubuku — a refutação do errôneo e a revelação do verdadeiro — especificamente expressa como “denunciar os inimigos do Sutra de Lótus”, um ato que incorpora a causalidade da Lei Mística e que nos permite transformar o carma.
“Assim como Nitiren.” — Quando nos munimos da “coragem de um leão”, praticamos com a mesma postura que Nitiren Daishonin e nos empenhamos intrepidamente para propagar o ensino correto, manifestamos de nosso interior um estado de Buda idêntico ao que foi manifestado por ele.
“Graças aos benefícios obtidos por proteger a Lei [as pessoas podem amenizar, nesta existência, os sofrimentos e a retribuição]”, afirma o sutra Parinirvana. Isso significa que podemos transformar nosso carma, agindo como reis leões, exatamente como fez Nitiren Daishonin, e nos dedicando sinceramente para proteger a Lei. De que forma podemos fazer isso? Denunciando quem ataca o ensino correto; ou seja, refutando o errôneo e proclamando o verdadeiro. Como resultado desse ato de coragem,
todas as nossas retribuições cármicas se desvanecem “instantaneamente”, assegura-nos Daishonin. Podemos também estabelecer em nossa vida a condição iluminada do estado de Buda. Para nós, os “benefícios obtidos por proteger a Lei” referem-se aos que conseguimos por meio da luta em prol do Kossen-rufu junto com nosso mestre.
1. Garoto Montanhas de Neve: Nome do Buda Sakyamuni numa de suas existências passadas, quando realizava a prática de Bodhisattva.
A divindade Shakra, decidida a testar a determinação do menino, aparece diante dele sob a forma de um demônio faminto. Depois de ouvir a primeira parte de um ensino budista recitado pelo demônio, o menino lhe suplica que revele a outra metade. O demônio aceita, porém, exige em troca a carne e o sangue dele. Montanhas de Neve promete, de bom gosto, oferecer o corpo ao demônio, que então lê para ele a segunda metade do ensino. Quando o garoto está prestes a cumprir o prometido, o demônio recobra a forma anterior, revelando-se como Shakra. A divindade elogia a atitude de Montanhas de Neve de não poupar a própria vida em prol da Lei.
2. Asceta Aspiração à Lei: Nome de Sakyamuni numa de suas existências passadas. Um demônio disfarçado de brâmane apresenta-se a ele e diz que lhe ensinará uma estrofe de um ensino budista se ele se dispuser a transcrevê-la usando a própria pele como papel, um dos ossos como pena e o sangue como tinta. Quando Aspiração à Lei aceita de bom grado e se prepara para escrever o ensino budista, o demônio desaparece. No lugar deste, surge um buda e transmite-lhe um profundo ensino.
3. Tient’ai (538-597): Também conhecido como Chih-i e Grande Mestre Tient’ai. Fundador da escola budista chinesa Tient’ai. Suas explanações foram compiladas em obras como Profundo Significado do Sutra de Lótus, Grande Concentração e Discernimento, e Palavras e Frases do Sutra de Lótus. Tient’ai refutou as demais escolas budistas da China e propagou o Sutra de Lótus. Classificou os sutras de Sakyamuni em cinco perío­dos e oito ensinos, comprovando a supremacia do Sutra de Lótus. Na obra Grande Concentração e Discernimento, Tient’ai estabeleceu o princípio teórico dos três mil mundos num único momento da vida (Itinen Sanzen).
4. Dengyo (767-822): Também conhecido como Saityo e Grande Mestre Dengyo. Fundador da escola Tendai (Tient’ai) no Japão. Em 804, partiu para a China para estudar as doutrinas de Tient’ai. Retornando no ano seguinte, fundou a escola Tendai. O termo Tendai é a forma japonesa de pronunciar a palavra chinesa Tient’ai. Refutou os erros das seis escolas de Nara — as escolas budistas estabelecidas nessa época —, proclamou a validez do Sutra de Lótus e se dedicou a fundar o centro de ordenação do Mahayana no Monte Hiei.

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